quarta-feira , 30 setembro 2020

MARTA GLADIADORA

Marta Gladiadora: a “Vovó” do MMA

 

Aos 42 anos, atleta de Maringá é um dos destaques mais recentes do octógono

 

Por Andressa Rufino

 

Pode-se dizer que o ano de 2010 foi um divisor de águas na vida de Marta Gomes de Souza. Vítima de violência doméstica, a cabeleireira encontrou nas artes marciais não apenas uma forma de se defender do marido, mas um futuro promissor como atleta amadora. E detalhe: aos 40 anos de idade! Confira a seguir o enredo dessa história inspiradora.

Fotos: Myriam Albertuni

Do salão para o tatame

 

Nascida em Maringá e filha de pastores, Marta se mudou para a capital paranaense aos 32 anos buscando mudar de vida – e mudou mesmo! Sempre de olho nos looks do momento, foi parar em um salão de beleza no Shopping Cristal onde aprendeu um ofício e se tornou cabeleireira e maquiadora. Apesar da alegria com a nova profissão, Marta tinha um casamento bastante conturbado, com um marido agressivo, o que afetava diretamente sua autoestima, além da vida de suas duas filhas. Pensando em sua defesa pessoal e mesmo em fatores estéticos que pudessem trazer de volta o amor próprio, iniciou a prática do Muay Thai na Academia Renovação, em Santa Rita, com o mestre Valdomiro.

 

“Fui ver um treino e gostei muito. Me matriculei e três meses depois estava encima do ringue para o meu primeiro combate como amadora. Todo mundo falava da adrenalina e emoção de lutar e eu queria muito sentir isso na pele. Mesmo saindo derrotada, gostei tanto de estar ali que passei a me dedicar mais aos treinos e buscava outros eventos para participar”, conta a cabeleireira, que  alguns meses após entrar na academia conseguiu coragem para se divorciar e dar fim ao relacionamento abusivo que durava 15 anos.

 

Jornada dupla

 

Assim como muitos atletas que sonham em chegar ao topo, Marta vivia uma rotina puxada para conciliar a vida profissional, de mãe solteira e agora atleta. “Saia de casa as 7 da manhã, ia para o trabalho onde encarava uma jornada das 8h às 18h, depois ficava na academia das 19h até 22h, 22h30. Várias vezes cheguei no salão cansada e com alguns hematomas. As clientes me diziam que eu era doida, mas eu gostava muito do que eu fazia”, conta.

 

Após se graduar no Muay Thai e com isso passar a ministrar algumas aulas, decidiu encarar o MMA (Mixed Martial Arts). Foi então que a paixão pelos combates falou mais alto e Marta tomou a decisão de largar o trabalho no mercado de beleza para se dedicar a vida de atleta amadora. “Queria viver da luta. Costumo dizer que o melhor lugar do mundo é encima no ringue. Quando estou lutando, coloco todo meu sentimento naquilo”, explica.

 

“Ela tem um talento fora de série. Apesar da idade, ela não se intimida e faz lutas bem técnicas e empolgantes. O pessoal adora!”, conta Xicão Joly, um dos announcers (locutores) mais bem conceituados do Brasil.

 

Fotos: Myriam Albertuni

O mais recente combate: Marta Gladiadora (branco) derrota Jane Absoluta

Reconhecimento

 

Marta “Gladiadora”, como ficou conhecida, apesar de iniciar uma jornada tardia no octógono surpreendeu muitas adversárias e o público com seu desempenho de alto nível com mais de 30 anos de idade, um período em que muitos estão na verdade começando a pensar em se aposentar. Isso sem falar na entrega que a lutadora demonstra durante o combate, o que contribuiu inclusive para que Marta ganhasse em 2017 o Prêmio Osvaldo Paquetá, o famoso “Oscar do MMA”, de melhor luta do ano contra Priscila “Pedrita” Cachoeira (atleta que posteriormente entrou para o UFC) na disputa no Curitiba Top Fight 11.

 

“Sou muito feliz com o que faço. Passei por muitas coisas ruins mas superei e hoje o que mais quero é continuar treinando, competindo e também formando meninas para dar duro no cage. Para mim é gratificante servir de exemplo para outras pessoas”, afirma.

 

Inspiração para atletas de todas as idades, principalmente para meninas e mulheres, Marta segue motivada a construir uma carreira sólida no mundo das lutas. “Não tenho planos de ir para o UFC, afinal a idade é um fator limitante. Mas ainda pretendo lutar em um grande evento, daqueles que haja transmissão ao vivo pela televisão. Tenho 42 anos atualmente mas me sinto como se tivesse 20!”, diz.

1.Marta com as filhas Leticía e Beatriz

2. Marta, com o namorado Pedro e os netos Maria Vitória e Miguel

Segredos da maturidade

Para Roni Montrezol, técnico de Marta, o que mais chama a atenção na atleta é justamente a dedicação dela nos treinos e a determinação para vencer. “A coragem dela impressiona. Ela nunca rejeitou uma luta, todas as que foram casadas ela aceitou. E ela pegou adversárias que hoje estão no UFC, o que mostra que o nível técnico dela é realmente acima da média”, explica.

 

Acostumada a lutar na categoria até 57kg, Marta decidiu recentemente partir para um novo desafio. Competir na categoria até 61kg. Em seu último combate, realizado no início do mês de outubro, a Gladiadora derrotou Jane Absoluta por nocaute técnico. “Foi um boa luta. Ela teve problemas para diminuir a distância. A adversária dificultou um pouco, ela não conseguiu se aproximar para encaixar o ponto forte dela que é o direto. Mesmo assim conseguiu finalizar ainda no segundo round”, conta o treinador.

 

Ainda assim, Roni lembra que a principal dificuldade para Marta na verdade é encontrar adversárias para lutar. “Geralmente é difícil uma pessoa aceitar lutar com ela tendo menos de 10 lutas no cartel. Ela tem um condicionamento físico muito bom, é experiente então, não é qualquer menina que aceita pois sabe que encontrará dificuldades.”

 

Vovó do MMA

 

Após tantas vitórias, especialmente fora dos ringues, não é de se estranhar que história de Marta tenha estimulado os membros da família a seguirem seus passos no tatame. Letícia, a filha mais velha, se apaixonou pelo jiu-jitsu. Beatriz também foi para o Muay Thai. Mas quem gosta mesmo de colocar as luvas e partir para o ataque são Maria Vitória e Miguel, os netinhos de Marta.

 

“Me enche de orgulho ser avó e ainda passar o carro nas meninas de 20 anos (risos)”, conta a lutadora, que também ganhou um torcedor assíduo em sua vida, Pedro Iurkiv, de 51 anos.

 

“Ele é corredor de rua, não sabe nada de luta, mas tem aprendido bastante. É um grande companheiro que veio para somar na minha vida”, ressalta a atleta que agora tem o coração preenchido com muito amor… pela família, namorado e, principalmente, pelo esporte.

 

 

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