quarta-feira , 8 julho 2020

Mais que uma batida na cabeça

Mais que uma batida na cabeça

 

Saiba mais sobre lesões relacionadas aos impactos repetitivos na cabeça e como prevenir traumas graves ao longo do tempo.

 

Por Andressa Rufino

 

A concussão cerebral é algo muito comum durante a prática esportiva, principalmente em modalidades de luta (Boxe, Muay thai, MMA etc) e esportes de impacto como Futebol Americano, Rubgy e mesmo o Futebol, paixão nacional. Entretanto, quando um choque na cabeça ocorre, ainda existem muitas dúvidas como: Quando é algo simples e quando devo me preocupar? Toda batida na cabeça exige atendimento médico ou a realização de exames de imagem? Quanto tempo depois de um nocaute posso voltar aos ringues? Enfim, trata-se de um assunto complexo mas que certamente pode afetar você ou alguém que você gosta.

 

Em entrevista à Combat Sport, o dr. Renato Anghinah, neurologista e chefe do Serviço de Reabilitação Cognitiva Pós-TCE do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, conhecido por atender as lendas do boxe brasileiro como Maguila e Éder Jofre, esclareceu sobre os principais sintomas, tipos de lesão e como é possível minimizar os traumas ocasionados pela prática esportiva.

 

O que é Concussão Cerebral?

 

Segundo a literatura médica, a Concussão Cerebral trata-se de uma lesão ocasionada por forças de impacto externas, intencionais ou não, na cabeça. Já o Traumatismo Craniano, também muito conhecido pelas pessoas, é uma contusão que atinge a camada externa da cabeça, com ou sem a presença de hemorragia (interna ou externa), que pode vir a se tornar um Traumatismo Cranioencefálico (TCE), uma vez que dependendo da força do impacto pode-se prejudicar de forma temporária ou permanentemente as funções cognitivas, física e psicossocial do indivíduo.

 

Estudos científicos mostram que 75% das concussões não apresentam perda de consciência e por isso muitas vezes são consideradas lesões sem grande importância. Todavia o desmaio não é a única coisa que o indivíduo deve se preocupar quando sofre uma pancada na cabeça.

 

“Sabemos que lesões significativas podem ocorrer mesmo sem a perda total da consciência. Alguns sintomas como confusão mental, problemas de memória, tontura, dores de cabeça, insônia e dificuldade de concentração podem surgir dias ou semanas após a concussão. Isso deve ser observado com muita atenção pois pode levar, por exemplo, a uma baixa produtividade no trabalho. Assim, o ideal é ficar atento não só aos aspectos físicos mas comportamentais do paciente. Caso haja sintomas como os citados acima ir ao médico e, se for o caso, realizar exames mais específicos”, conta o Dr. Anghinah.

 

 

Nocaute e riscos potenciais

 

A maioria dos esportes de luta tem como objetivo o nocaute ou fazer o adversário desistir. Mas o que é um knock down para a ciência? Nada mais é do que uma concussão que, eventualmente, dependendo da pancada, pode ser um trauma de crânio. Considerando isso, é preciso alertar o atleta para a chamada Síndrome do Segundo Impacto, que consiste em novo trauma antes mesmo da recuperação total do cérebro após o primeiro impacto.

 

“É uma situação muito frequente na prática esportiva e mais evidente em lutas. Conforme existe uma sucessão de pancadas o cérebro incha ou pode ter hemorragias. Com isso os indivíduos não só perdem a consciência como podem vir a óbito. Por isso é preciso muita atenção”, reforça o doutor e professor da USP.

 

No futebol, por exemplo, o choque cabeça com cabeça é considerado por muitos normal. O atleta às vezes apaga em campo mas acorda minutos depois e sai jogando. Porém ele também sofreu uma concussão e deveria ser avaliado com mais atenção, até porque, se o atleta sofre um novo trauma no mesmo jogo – o que não é difícil – ele pode agravar a lesão inicial.

 

“Na NBA, NFL entre outras ligas milionárias já existem protocolos que retiram o atleta do jogo imediatamente caso haja concussão. É rígido mas mais seguro para o indivíduo”, lembra o Dr. Anghinah.

 

Retorno as atividades – DESENHAR BOX

 

O retorno após um nocaute está sujeito a regras rígidas que consideram fatores como a perda ou não da consciência, a duração do trauma e a reincidência do nocaute.

 

Nocaute ou nocaute técnico sem perda de consciência – mín. 30 dias afastado

Nocaute ou nocaute técnico com perda de consciência inferior a 1min – mín. 90 dias afastado

Nocaute ou nocaute técnico com perda de consciência superior a 1min – mín. 180 dias afastado

Segundo nocaute ou nocaute técnico em período de 3 meses, sem perda de consciência – mín. 60 dias afastado

Segundo nocaute ou nocaute técnico em período de 3 meses, com perda de consciência maior que 1min – mín. 180 dias afastado

Terceiro nocaute ou nocaute técnico em período de 360 dias, sem perda de consciência – mín. 12 meses afastado

Terceiro nocaute ou nocaute técnico em período de 360 dias, com perda de consciência – mín. 18 meses afastado

 

Fonte: Pagura, Jorge / Anghinah, Renato. Concussão cerebral: mais que uma simples batida na cabeça!. Barueri, SP: Novo Século Editora, 2016. Pág. 62.

 

 

Demência Pugilística e ETC

 

O histórico sucessivo de Concussõess Cerebral e/ou Traumatismos Cranioencefálicos (TCE), comuns também em pessoas que sofrem violência doméstica ou epiléticos mal controlados, podem desencadear no futuro doenças crônicas – que permanece no indivíduo por um período superior a seis meses, podendo ou não ser curadas; progressivas – cujo curso pode ser o agravamento, crescimento ou propagação; ou degenerativas – toda aquela que altera o funcionamento normal de uma célula, tecido ou órgão. Uma das enfermidades mais conhecidas entre os atletas é a Demência Pugilística.

 

O termo Demência Pugilística surgiu no final da década de 1920 para designar a síndrome que boxeadores e ex-boxeadores apresentavam ao longo do tempo em virtude de inúmeros golpes levados na cabeça. Sintomas como dificuldades de raciocínio, perda de memória, alterações de comportamento e humor, dificuldade de andar e irritabilidade fizeram com que muitos atletas inclusive fossem diagnosticados com doença de Parkinson e/ou Alzheimer erroneamente, uma vez que os sinais são bastante similares num primeiro momento.

 

Em 2005, foi diagnosticado o primeiro caso de Encefalopatia Traumática Crônica (ETC) em um ex-jogador profissional de futebol americano, Mike Webster. O episódio alertou para os problemas neurodegenerativos que podem ser desenvolvidos no esporte como um todo. A partir daí, vários casos foram estudados e descobertos em várias modalidades esportivas, o que fez com que o termo Demência Pugilística fosse substituído gradativamente por ETC.

 

“Hoje podemos dizer que existem 2 grupos de Encefalopatia Traumática Crônica: Aqueles com menos de 50 anos, um grupo mais jovem, que tem mais sintomas comportamentais, por exemplo, um cara que aparentemente é super bem sucedido, mas apresenta depressão; já o grupo mais velhos, acima de 50 anos, que tem sintomas muito parecidos com o Alzheimer, mas com uma evolução muito mais lenta. No começo é muito difícil notar as diferenças, mas se a pessoa começa a reclamar que está ficando esquecida, tem distúrbios de sono, existe histórico de TCE, é bom  procurar um médico para realizar exames mais detalhados”, explica o neurologista.

 

Existe também um terceiro grupo minoritário que ainda não apresenta sintomas, mas praticaram ou ainda praticam esportes de luta ou esportes de impacto, que podem procurar orientação “Hoje sabemos por meio de genética quais pessoas tem propensão ou não a ter doenças neurodegenerativas. O ideal é chegar no nível de diagnosticar aqueles que possuem essa tendência natural antes de iniciar a prática esportiva”, afirma o doutor.

 

O diagnóstico é feito por uma série de exames clínicos, de sangue e imagem, além de avaliações neurológica e cognitivas, mas só é possível confirmar definitivamente o quadro após a análise “pós-morte” do cérebro do indivíduo. Um caso famoso é o do ex-capitão da seleção brasileira de futebol, Bellini, diagnosticado em 2014.

 

“Por isso precisamos conscientizar as pessoas sobre a importância de doar os órgãos para a pesquisa. Diferente do que ocorre em alguns países no exterior, onde a vontade do indivíduo já basta, no Brasil ainda é preciso autorização da família para efetuar a doação. A menos que exista um testamento vital, feito em vida e registrado em cartório, que segundo a legislação brasileira tem força de lei”, explica o neurologista da USP.

 

Prevenção

 

O Dr. Renato Anghinah reforça a necessidade de adaptação de algumas regras às novas tendências do esporte moderno, que não focam apenas no alto rendimento, mas incentivam principalmente a saúde e qualidade de vida do praticante.

 

“Alguns esportes de combate, por exemplo o boxe, eliminaram o uso de capacete com alegação de que sem a proteção teoricamente o cara esquiva mais e toma menos pancada. Isso é um mito porque o cara é treinado para esquivar e bater. Claro que como entretenimento a modalidade é mais vendável e atrativa comercialmente sem a proteção. Então tem que voltar a usar o protetor para minimizar as lesões sim, seja no profissional ou entre amadores. A luta não vai ser menos emocionante por isso. Conversei com o próprio Eder Jofre, que nunca foi nocauteado. Ele falava que a alma do negócio é a técnica. O prazer do individuo é ter a técnica para evitar tomar o golpe e fazer com que o seu contragolpe entre”, explica o neurologista.

 

Para o professor da USP,  a evolução do tae kwon do é bom exemplo de que a proteção funciona pois o objetivo é mostrar a arte da luta. Não é necessário derrubar o adversário para ganhar o combate, se o golpe entrou ou atingiu a área delimitada o ponto é contado por mecanismos eletrônicos.

 

“Não precisa usar força desproporcional e causar dano, ele ganha a luta porque você tem uma série de critérios que podem avaliar objetivamente se o golpe foi sentido e se o atleta é bom ou não. Teoricamente a evolução dos esportes de luta tem que ser assim e no esporte amador principalmente. A prioridade é não ter como objetivo o nocaute. As academias podem incentivar mais o treinamento tático do que a força, sem precisar machucar os alunos. A busca hoje é a qualidade de vida e essa cultura tem que ser mais valorizada”, reforça o neurologista.

 

Serviço

 

O livro “Concussão cerebral: mais que uma simples batida na cabeça!”, lançado em 2016 pela Novo Século Editora, foi escrito pelo Dr. Renato Anghinah em parceria com o neurocirurgião Dr. Jorge Pagura e com a colaboração de especialistas na área, é uma ótima fonte de informação para aqueles que desejam saber mais sobre o assunto. A obra é de fácil entendimento e traz casos práticos para ajudar o leitor a compreender melhor o tema.

 

Além disso, o professor reforça que qualquer atleta ou ex-atleta, profissional ou amador, que sofra com alterações cognitivas ou tenham dúvidas sobre os sintomas que estejam lidando e queriam orientação ou tratamento podem procurar o Serviço de Reabilitação Cognitiva Pós-TCE do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Podem participar do estudo pessoas atendam alguns pré-requisitos, como ter praticado esporte mais de 4 anos, entre outras exigências, lembrando que o atendimento, consultas e exames são gratuitos. Mais informações pelo e-mail: anghinah@usp.br.

Dr Renato Anghinah

 

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