terça-feira , 12 novembro 2019

Karatê Kyoskushin: do apogeu a renovação

Karatê Kyoskushin: do apogeu a renovação

 

Após décadas de sucesso e uma queda no interesse, conquistas recentes da modalidade, que vão desde a ascensão de atletas em Campeonatos Mundiais e torneios profissionais de MMA até as mudanças na organização de eventos, fizeram o Kyokushin voltar a crescer no cenário esportivo nacional.

 

Pulverização nas décadas de 80 e 90

 

O Karatê Kyokushin foi criado em 1957 no Japão pelo Grão Mestre Masutatsu Oyama.  No Brasil a história do estilo teve início em outubro de 1972, quando o instrutor japonês Seiji Isobe, 3° grau do estilo, imigrou para o país. Isobe não só contribuiu para o crescimento da modalidade como foi homenageado diretamente por Oyama por seu trabalho árduo na divulgação do estilo na América do Sul.

 

A Academia Kyokushin Liberdade está instalada em uma sobreloja da Avenida Liberdade desde 1974. Até então, os treinos eram realizados num galpão na Rua da Glória, no mesmo bairro, mas com o aumento do número de alunos, Shihan Seiji Isobe optou por alojar-se num lugar maior.

 

Na década de 1980, pode-se dizer que a modalidade viveu seu primeiro grande salto com a popularização do karatê de contato. Os fãs de arte marcial procuravam pela “trocação” dos combates de pé  e a modalidade oferecia todo dinamismo necessário com seus socos e chutes potentes.

 

“Nesta época, entrava 50 alunos por mês. Toda aula tinha nocaute. Era uma loucura e a procura era muito grande. Em mais de 40 anos de existência, a matriz, hoje classificada como matriz sul-americana do estilo, formou dois campeões mundiais, além de diversos atletas de destaque internacional. Isso prova o profissionalismo e excelência na prática e ensino da arte marcial”, lembra o Shihan Marcos Costa, que está a 34 anos inserido na modalidade e atualmente é responsável pela Kyokushin Pinheiros.

Karatê Kyokushin

Primeiros ídolos

 

Com o título mundial de Francisco Filho em 1999 o Kyokushin atingiu seu ápice. No mesmo período, Ewerton Teixeira e Glaube Feitosa também se destacavam no cenário nacional e internacional, inspirando diversos praticantes com suas vitórias. Ewertons inclusive conquistou o segundo título mundial para o Brasil em 2007.

 

“Eles ganharam tudo, foram campeões estaduais, brasileiros e mundiais. Também participaram de grandes eventos como o K1 Grand Prix, ajudando no desenvolvimento de uma ótima safra de atletas”, conta Marcos.

 

O K1 inclusive foi um dos responsáveis pelo segundo grande salto da modalidade. Com o crescimento do evento, especialmente no Japão, os atletas do Kyokushin viveram uma fase de muito sucesso.

 

“O K1 era o maior evento de combate em pé do mundo, com a participação de atletas renomados. Como o Kyokushin também era forte no Japão, era importante para o K1 ter alguém da modalidade no evento. O suíço Andy Hug, vice-campeão mundial de karatê foi o primeiro a sair do estilo pra lutar no evento, algo que até então o Kyokushin não permitia”, explica Marcos Costa.

 

Mas vale lembrar que foi o brasileiro Francisco Filho que se tornou um divisor de águas na modalidade, pois foi o primeiro atleta do Kyokushin a representar o estilo contra outras modalidades. “Ele treinou mais ou menos 6 meses e foi lutar justamente contra o Andy Hug, que era campeão do torneio na sua categoria. O risco foi grande, o simbolismo também, mas o Francisco Filho nocauteou o suíço e depois disso foi vencendo outros grandes atletas e colocando o kyokushin em um novo patamar de prestígio.”

 

Fragmentação

 

Após a morte do mestre Oyama em 1994 e com o crescimento de outras artes marciais no início dos anos 2000 a modalidade acabou se fragmentando. Alguns saíram e montaram suas próprias organizações, com suas próprias regras e critérios. Outros continuaram com a filosofia e padrões da Kyokushin tradicional.

 

Em 2000, Shihan Isobe passou o comando da matriz da Liberdade para seu filho, Riyuji Isobe, que desde então, coloca em prática os ensinamentos do pai, seguindo o currículo mais tradicional.

 

“Para o Shihan Isobe o mais importante sempre foi manter a filosofia. Tem que ensinar da mesma forma que ele aprendeu no Japão, outras formas e caminhos não nos é vantajoso. Presamos muito pela qualidade, mais do que a quantidade, e isso nos manteve com o mesmo status de anos atrás”, afirma Marcos Costa.

 

Novos ídolos e aproximação com o MMA

 

Nos últimos tempos, uma nova geração de atletas tem sido responsável por resgatar a boa fase do Karatê Kyokushin no Brasil. No mês de novembro, uma seleção de 6 atletas que mescla atletas experientes com jovens talentos disputa o Campeonato Mundial no Japão e estão estimulando os novos adeptos a seguir na modalidade. São eles:

 

O veterano Diogo Silva, que aos 38 anos segue como um dos melhores atletas em atividade dos últimos 8 anos; Daniel Pereira, 32 anos, campeão sul-americano e bi nacional; Eder Gama, um dos destaque na categoria médio de 80kg; Ícaro Nascimento de apenas 19 anos, 140kg e é um dos atletas mais promissores desse novo plantel; Luigi Batani e Ignácio Silva tem crescido de maneira rápida.

 

“Não existe nenhuma estrela solitária, mas uma geração de bons atletas que têm se tornado referência para os praticantes por seus resultados expressivos dentro e fora da modalidade. O Daniel, por exemplo, já tem 5 lutas profissionais no currículo e é um dos sparrings do Demian Maia, lutador do UFC. O Eder já tem cerca de 20 lutas de MMA no cartel”, conta Marcos Costa.

 

O MMA, aliás, tem sido um aliado importante no reconhecimento das virtudes e benefícios da prática da modalidade. “Acredito que a disciplina, a determinação dos atletas e o espírito guerreiro são atributos que ajudam muito no MMA. Nossos atletas já carregam isso na rotina e também estão acostumados com o contato mais forte durante as lutas. Então por isso fica mais fácil a aproximação entre os estilos”, reforça Marcos.

 

Novas diretrizes e expectativas

 

Hoje o Karatê Kyokushin é praticado em mais de 100 países ao redor do mundo. Todos os anos, em cada um deles, realizam-se competições regionais e nacionais que preparam os competidores para o torneio mundial de Tóquio, a cada quatro anos. Atualmente são aproximadamente 8 mil no Brasil, sendo 3 mil em São Paulo. A modalidade está presente nas nos 4 cantos do país: Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santos, Minas Gerais, Distrito Federal, Bahia, Ceará e Amazônia.

 

“Estamos conseguindo abrir uma média de duas academias por ano. Preservamos ainda aquele treino forte, por isso os atletas tem um nível cada vez melhor, mas temos também famílias inteiras, pais com 40 anos, crianças e jovens. O público agora é bem diverso”, diz Marcos Costa.

 

Em 2018, Marcos foi responsável por algumas mudanças importantes na estrutura e organização do Campeonato Paulista. O torneio ficou mais dinâmico, as disputas mais competitivas e equilibradas, temos provas de kata para aqueles que não querem partir para o combate e a premiação é mais atrativa.

 

“O evento foi um sucesso e com isso me pediram para ajudar na organização do Campeonato Brasileiro. Em janeiro de 2019 uma nova diretoria assumiu a Federação e a proposta é deixar a gestão cada vez mais eficiente, fazendo com que os atletas de elite consigam pelo menos manter a estrutura de treinos e também tenham condições de participar dos eventos internacionais, crescendo na modalidade”, diz Marcos, que também está atuando na organização do Campeonato Paulista, dia 18 de agosto, em Mogi das Cruzes

 

Outra vertente que o Kyokushin tem apostado é em projetos sociais, não apenas para incentivar a formação de atletas, mas por questões sociais e de filosofia, tirando crianças e jovens da situação de vulnerabilidade.

 

“O karatê ainda é um esporte amador, então sabemos que é difícil viver só como atleta. Por isso temos, por exemplo, o Instituto Olivia Corvo e o CEU Paraisópolis, na periferia de São Paulo, dois projetos que já formaram campeões estaduais, nacionais e até sul-americanos. Ou seja, são crianças que não tinham perspectiva do que fazer da vida e veem no esporte um caminho pra seguir na vida”, reforça Marcos.

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