segunda-feira , 21 outubro 2019

Eugênio Kropowski – Histórias marcantes de uma das lendas do fisiculturismo no Brasil

TRAJETÓRIA

 

Eugênio Kropowski – Histórias marcantes de uma das lendas do fisiculturismo no Brasil

 

A Combat Sport teve o prazer de entrevistar o catarinense considerado “pai da musculação” no Brasil e resgatar para o leitor momentos importantes dos tempos  iniciais e áureos do fisiculturismo brasileiro.

 

Esportista desde o berço

 

Eugênio Kropowski nasceu em Blumenau (SC) em 1943, mas com 5 anos mudou-se com a família para São Paulo e desde então fez da terra da gora sua casa. Com o pai (cavaleiro e nadador, era natural que o menino se interessasse desde cedo pela prática esportiva.

 

“Sempre via com muita curiosidade os demais atletas. Aos 13 anos, alguns amigos decidiram se inscrever como sócio militante do Esporte Clube Pinheiros e fui junto. Começamos no atletismo, fazíamos saltos, arremessos, corrida, mas por recomendação do nosso treinador fui conhecer um barracão onde se treinava levantamento de peso. Era tudo bem rústico, barra fixa, paralelas, pesos bola, bancos e suportes em geral, mas eu gostei muito e desde então não parei mais”, conta o professor.

 

Nessa época o levantamento de peso ainda não era conhecido como hoje, mas as pessoas treinavam para se aperfeiçoarem em outras modalidades. O próprio Eugênio também testou sua aptidão em outros esportes. “Fiz um pouco de wrestling, pugilismo e lutas em geral. Cheguei a ser campeão  junior no arremesso de dardo e também me dava bem na corrida de meio fundo.”

Eugênio Kropowski – Histórias marcantes de uma das lendas do fisiculturismo no Brasil

Primeiro contato com o bodybuilding

 

Aos 16 anos, Eugênio chegou a circular em algumas academias de luta, inclusive conhecendo o treinador “Kid Jofre”, pai de Eder Jofre (maior peso galo do boxe internacional). Mas foi no Ginásio Ipê, encima do Cine Cruzeiro, na Vila Mariana,  entre treinos de halterofilismo e judô, onde foi se aproximando do que hoje conhecemos como musculação.

 

Não demorou muito, em 1963 montou sua primeira academia em Santo Amaro, a Espártaco. A inspiração do nome veio tanto pela figura heroica do gladiador Spartacus, como também pelo desejo constante de melhoria das condições sociais, uma vez que naquela época a juventude mundial promovia manifestações políticas em vários países com cunho democrático e social. Além do então denominado halterofilismo, Eugênio chegou a implementar aulas de judô, karatê, capoeira e outras formas de ginástica e danças no local.

 

“Naquele tempo era comum você treinar halterofilismo para ficar forte e alguma luta para se defender. Mas, com o passar do tempo, acabei tirando as lutas e ficando só com a parte de musculação”, recorda.

 

Atleta e dirigente

 

Em 1974, Eugênio já dividia a rotina de atleta e treinador de lutas e  fisiculturismo. Após participar de alguns campeonatos, como o de Estreantes e o Paulista, além de algumas reuniões da Federação Paulista de Culturismo (FPC), conheceu o então “estudante de medicina” José Maria Santarém, que viria a ser o pioneiro no Brasil na utilização terapêutica dos exercícios resistidos e grande estudioso das suas aplicações em prol da saúde. A proximidade de ambos com diversos atletas e o perfil ativo e influente fez surgir a oportunidade de assumir a direção da FPC em 1977.

 

“A ideia era assumir apenas por um ano, em função da vacância do cargo e da eminência da extinção da Entidade. Terminado esse período, me pediram para assumir um mandato de três anos. No ano seguinte, organizamos vários novos campeonatos de fisiculturismo, além do Paulista de Estreantes e o Paulistão. Queríamos ter realmente muitos iniciantes na modalidade fomentando a sua prática no Estado, com a popularização do esporte”, explicou o treinador.

 

No final da década de 70, a musculação e o conceito fitness ganharam popularidade Nacional. Existiam várias revistas, nacionais e internacionais em circulação. Além disso, juntamente com o Dr. Laércio Jorge Martinez,  foi oficializada a fundação da Confederação Brasileira de Culturismo. “Com isso, nos filiamos oficialmente à International Federation of Bodybuilding and Fitness (IFBB), a International Powerlifting Federation (IPF) e a Federação Internacional de Luta de Braço. Ou seja, durante muitos anos organizávamos 3 tipos de competições: luta de braço, conhecido popularmente como “Braço de Ferro”, levantamento de peso e fisiculturismo. Eram mais de 30 competições ao ano só em São Paulo”, lembra Eugênio.

 

A filiação à IFBB  permitiu a expansão do esporte além das fronteiras. Eugênio foi eleito presidente da Entidade Nacional em 1985 e permaneceu no cargo por dois mandatos (1986 à 1991). Nessa época conseguiu fundar várias outras federações estaduais, chegando a realizar campeonatos brasileiros com a participação de 23 estados.

 

Fora do box

 

Enquanto o fisiculturismo se desenvolvia em território paulista e ganhava notoriedade, Eugênio lembra que já nas décadas de 1940 e 50, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Pernambuco se destacavam na modalidade. Sua força veio principalmente por conta de um movimento chamado Força e Saúde,  fundado  no Rio de Janeiro em junho de 1946. Numa época em que o levantamento de peso era marginalizado, o grupo de jovens entusiastas oriundos da Associação Cristã dos Moços, se reunia em uma sala para a prática de exercícios com pesos, deixando de lado a então popular ginástica calistênica.

 

“Eles foram os primeiros a pensar em algum tipo de suplemento, produziram a primeira barra olímpica Nacional aprovada por entidades internacionais da época, chegaram a publicar uma revista que ficou famosa dentro e fora do Brasil , a pioneira Força e Saúde, produzida de 1946 a 1952. Ou seja, eles foram os pioneiros do halterofilismo no Brasil , promovendo os primeiros campeonatos de levantamento de pesos e de competições de fisiculturismo no Brasil , com as concorridas competições nacionais de Melhor Físico” , explica Eugênio.

 

Mas isso não quer dizer que São Paulo ficou para trás na modalidade. Na década de 1960, Eugênio juntamente com alguns professores e atletas chegaram a fabricar os próprios aparelhos de musculação, pois as máquinas mais modernas não haviam chegado ao país ou tinha um custo muito elevado. “Chegamos a fazer bancos, suportes, puxadores, barras e até aquelas polias excêntricas das máquinas Nautilus, famosas então nos EUA. Eu havia cursado de mecânica industrial, o que acabou ajudando na produção.”

 

Anos dourados

 

Entre a décadas de 80 e 90, o fisiculturismo brasileiro viveu o seu melhor momento no que diz respeito a eventos de primeira linha e qualidade dos atletas de alta performance. Impulsionado pela popularidade de figuras como Arnold Schwarzenegger, que já fazia a transição da carreira de atleta para a de ator conquistando os fãs de Hollywood, o Brasil conheceu grandes nomes que ficaram marcados na história da modalidade como Luís Otávio de Freitas, primeiro brasileiro campeão mundial de fisiculturismo (Mr. Universo), Juarez Estevão, um dos maiores posadores brasileiros, entre outros que despontaram já a partir da década de 1970, como Adão Augusto Ciríaco, Braz Antonio Gonzada, Benedito Honório Goncalves, Frederico Bitar, Hugo de Farias, Wilson Santos.

 

“A gente fazia eventos por amor e porque acreditava na modalidade. Modernizamos a arbitragem, organizamos os atletas corretamente por meio de cursos específicos, fazíamos um show igual aos eventos internacionais. Tenho muito orgulho de lembrar do Grande Auditório do Anhembi com mais de 3 mil pessoas no que foi a primeira grande lotação do Campeonato Brasileiro, repetida somente anos depois, em 2011, no mesmo local no Mundial NABBA”, recorda o treinador.

 

Foi nesse período inclusive que a atual geração de treinadores foi formada. Vale ressaltar que Koprowski, Dr. Santarém, Dr. Laércio, Prof. Afonso Monteiro, entre outras personalidades dessa linhagem clássica tiveram um papel significativo na transmissão de conhecimento técnico para milhares de profissionais, que hoje atuam em academias e centros de treinamento nos quatro cantos do Brasil e no exterior.

 

“A medicina, aliás, se tornou mais receptiva à musculação do que a própria educação física, o que ajudou muito na evolução dos protocolos e mesmo para reunir as informações com base em evidências científicas para se ter um bom resultado aliado à eficiência no treinamento físico”, reforça o professor.

 

Eugênio, também foi responsável pela criação de boletins informativos quando ainda não haviam revistas especializadas. Posteriormente foi editor e colunista de algumas revistas que rodavam as academias paulistas, disseminando informações e matérias relevantes sobre novos métodos de treinos, dietas, competições entre outros assuntos relacionados. “Tínhamos algumas matérias internacionais e trabalhos científicos traduzidos. A proposta era oferecer aplicações efetivas para os treinamentos da musculação, baseados na vivência prática e em estudos científicos de muitos anos.”

 

Segue o líder

 

A ampla bagagem fez com que Eugênio fosse conduzido novamente a um cargo diretivo. Após sua passagem de seis anos na Confederação em 1992 o professor Eugênio assumiu a Federação Paulista de Culturismo. “Auxiliado por vários amigos e atletas, reerguemos a entidade, ampliamos o espaço da sede, abrimos expediente diário, informatizamos o sistema, criamos um inédito cadastro de atletas que chegou a mais de 10 mil filiados. Além disso, após 3 anos de tentativas, junto com o Dr. Santarém, conseguimos oficializar nos órgãos em Brasília o termo “Musculação” para as entidades do culturismo Nacional. Dessa forma, passamos a nos denominar FEPAM – Federação Paulista de Musculação”, conta.

 

A FEPAM colaborava intensamente com as entidades nacionais e internacionais do bodybuilding via IFBB até o ano 2000. Nessa ocasião, observou-se a necessidade de criar mais uma porta internacional para os atletas brasileiros que muitas vezes encerravam suas carreiras com o título nacional e acabavam impedidos de ir além. Aproveitando a abertura da “Lei Pelé” e “Lei Zico”, em 2001 fundou-se outra entidade internacional que foi imediatamente filiada à NABBA – National Body Building Association, a mais antiga organização internacional de origem inglesa, onde grandes astros do esporte se sagraram campões. Com a expertise de Koprowski, a entidade cresceu rapidamente tornou-se referência internacional pelos 15 anos seguintes.

 

“Rio de janeiro, Minas Gerais, entre outros estados, e até pessoas de fora do Brasil vieram até nós para trocar experiências e fazer com que o show voltasse para os palcos. Todos também queriam saber como fazer com que os atletas nacionais tivessem mais resultados expressivos no exterior. Conseguimos mais de cem títulos internacionais e a Europa nos recebia de braços abertos”, conta o professor.

 

Perspectivas para o futuro

 

Após acumular uma vasta experiência, Eugênio saiu da linha de frente da parte burocrática e continua disseminando conhecimento por meio de revistas, livros, cursos e workshops, além, claro, de seguir como preparador físico de atletas. O foco agora é trabalhar com saúde e qualidade de vida, especialmente de pessoas mais idosas ou portadores de patologias diversas.

 

Para o treinador, o fisiculturista hoje acabou atraindo o estereotipo injusto de “dopping”, o que acaba prejudicando a modalidade. “Apesar de seguir atraindo muitas pessoas para as academias e mostrar os benefícios do esporte até hoje, para muitos, acabou sendo marginalizado.”

 

O professor ressalta que em contrapartida, a musculação atingiu um patamar de grande prestígio no que tange a saúde plena das pessoas. Diversos estudos científicos nas últimas décadas comprovam a sua ação benéfica não só no que diz respeito ao condicionamento físico. Por conta disso, o foco mudou em muitos centros de treinamento.

 

“As pessoas buscam não só um corpo bonito e mais musculoso, mas saúde, melhor mobilidade e disposição. A musculação está sendo vista como a melhor e principal atividade para a saúde músculoesquelética, cardiovascular e até a saúde mental, em função da contração muscular criar um território mais fértil para o nascimento de novos neurônios. É o retorno agora oficial da “Tenda dos Milagres” , como minha academia foi carinhosamente apelidada nos anos 1960 em função dos bons resultados obtidos pelos alunos, em uma época que a ciência ainda não estudava estes fenômenos do treinamento com pesos, mas nós já sabíamos”, lembra Eugênio.

 

 

LINHA DO TEMPO

 

1943 – Nasce em Blumenau (SC)

1948 – Muda-se para São Paulo (SP)

1956 – Começa a praticar atletismo no E.C.Pinheiros

1957 – Primeiro contato com o Halterofilismo no E.C.Pinheiros

1958 – Luta Livre na Academia Tambucci e Box na Academia São Paulo de Kid Jofre

1960 – Primeiro contato com a Modelagem Física (bodybuilding) no Ginásio Ipê

1963 – Abre sua primeira academia: Espartaco

1965 – Introduz a prática do Karatê na Zona Sul de São Paulo

1975 – Inicia sua participação em competições de Culturismo

1977 – Assume a presidência da Federação Paulista de Culturismo (FPC) – Início dos cursos de musculação

1978 –  Eleito presidente da FPC

1985 – Eleito presidente da Confederação Brasileira de Culturismo (IFBB Brasil)

1986 – Inicia relacionamento direto com a IFBB internacional

1987 – Luís Otavio primeiro Mr. Universe IFBB – do Brasil

1988 – Organizou o Campeonato Iberoamericano IFBB em São Paulo

1989 – Organizou o Campeonato Mundial IFBB em São Paulo

1991 – Término do mandato na IFBB Brasil

1992 – Eleito presidente da Federação Paulista de Musculação (FEPAM)

1993-  Lança a revista Musculação & Fitness

2001 – Funda a NABBA Brasil (National Body Building Association)

2002 – Inicio do envio de várias delegações de atletas brasileiros à eventos internacionais

2008- Encerra seu último mandato frente à FEPAM

2017: Homenageado pela Câmara de São Paulo com o título de Cidadão Paulistano

Hoje: Dedica-se à academia, produção de textos, livros, revistas, cursos e workshops.

 

 

 

 

 

 

 

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